quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

OS JORNAIS, POR RUBEM BRAGA.

RECEBI DE UMA ALUNA DO SÉTIMO SEMESTRE O TEXTO ABAIXO, DE RUBEM BRAGA.

NÃO CONHECIA ESSE TEXTO, INSPIRADOR, POÉTICO, LINDO, ROMÂNTICO, CRÉDULO...

UM PRIMOR PELA SENSIBILIDADE QUE TALVEZ FALTE AO RITO PRAGMÁTICO DO JORNALISMO. SOMOS DE FATO - E ISSO NÃO É UMA IRONIA - INSENSÍVEIS?

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OS JORNAIS


Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:
- Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desagraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenha conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime "Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz..." Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:
"Anteotem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos, 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: "Meu amor", ao que ele retorquiu: "Deolinda".
Na manhã seguinte Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às 7:45 da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra de propriedade do casal".
A impressão que a gente tem, lendo os jornais - continuou meu amigo - é que "lar" é um local destinado principalmente, à pratica de "uxoricídio". E dos bares, nem se fala. Imagine isto:
"Ontem, certa de 10 horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar "Flor Mineira", à rua Cruzeiro, 524, em companhia de seu colega Pedro Amância de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio Encantado, e a noite bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciante Adalberto Ferreira, residente à rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegando a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada".
E meu amigo:
- Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiaram tudo, tudo, menos, uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...

Rubem Braga, Borboleta amarela

Um comentário:

Natália Baffatto disse...

Que texto lin-do!

Eu acho que a maioria dos jornalistas que já leu esse texto provavelmente pensou: “Nossa, como gostaria de escrever algo assim. Que triste não poder escrever coisas tão ‘românticas’, mas apenas leads breves e pessimistas”.

Meu pai sempre chama a atenção em casa para isso. Se minha empregada está com o radinho dela na cozinha ouvindo as notícias do dia ou com a televisão ligada no noticiário matutino, ele sempre ouve lá do quarto as coisas ruins que aconteceram no dia anterior. Ele fala: “Tira disso! Pára de ouvir essas coisas logo de manhã. Os jornais só querem isso, só noticiam isso. Será que não acontecem coisas boas também?”.

E eu acho a postura dele corretíssima. Mas assim como os jornais escolhem o que querem noticiar, sendo a maioria coisas ruins, nós também podemos escolher o que queremos ler. E é por isso, creio eu, que o infotenimento tem sido cada vez mais contemplado pelos leitores, ouvintes e telespectadores do mundo todo.
Por menos jornalístico que seja, há mais sensibilidade. Há vontade de entreter os outros. Há vontade de ser menos frio, dá vontade de sorrir mais. Vejamos o Carnaval. OK, para certos jornalistas é a coisa mais chata fazer a cobertura desse grande evento, mas eu duvido que não há felicidade em noticiar que a alegria contagiava mesmo às cinco e treze da manhã na Sapucaí. Ou será que noticiar isso já não tem mais sentido, ou melhor, já não é mais notícia? “Porque notícia boa é aquela notícia que impacta todo mundo.” E alegria às cinco da manhã não é impactante num mundo tão cheio de insensibilidades?

É a primeira vez que eu entro no G1 e vejo, na parte inicial, notícias SÓ de Carnaval que, automaticamente, são positivas. Eu desfilei no Carnaval esse ano. Enquanto me preparava para entrar na apoteose, um fotógrafo passava pelos integrantes da escola de samba. Ele parou, me olhou, sorriu e tirou uma foto minha. Não satisfeito, quis duas. Eu sorria para a foto. Ele gostou. Eu tenho certeza, pela reação dele, que a sensação foi mais agradável ali do que tirar fotos das chacinas do subúrbio paulistano. Por que não trazer mais isso ao nosso cotidiano? Será que não venderiam mais jornais? Há quem compre remédio para solucionar a falta de felicidade.

Espero que esse texto de Rubem Braga, que sempre foi sensível em seus textos, ou melhor, sempre foi menos jornalista, desperte na consciência de cada jornalista de como a insensibilidade machuca. Talvez não machuque na hora de redigir o texto, mas vai machucar com o tempo quando refletir em outras partes da vida. Só estampam as coisas ruins e o sofrimento porque não é o sofrimento delas . Com essa rotina de noticiar o momento, mas não a VIDA, as pessoas também podem ter comportamentos parecidos além do profissional. Em vez de dar cor às linhas e parágrafos, vivem só de leads e pontos finais.